Primeira edição de 2026 articula discussão sobre escravidão, memória, identidade e formação do Brasil com base na obra “Um Defeito de Cor”
No último dia 31, o Procurador do Ministério Público de Contas do Estado de Minas Gerais Glaydson Massaria acompanhou a abertura da programação de 2026 do projeto Sempre um Papo – TCE Cultural, iniciativa que mobiliza literatura e reflexão crítica como instrumentos de aproximação entre o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) e a sociedade.
O evento recebeu no Auditório Vivaldi a escritora Ana Maria Gonçalves, autora do aclamado romance “Um Defeito de Cor”, para um encontro dedicado à discussão de temas como memória, identidade e formação social do Brasil, presentes em sua obra. A conversa, conduzida pelo Diretor de Tecnologia da Informação do TCE-MG, Alexandre Souza da Silva, percorreu questões como memória, identidade e formação social do Brasil.
A recepção à escritora foi marcada pela apresentação do Coral Afro Vozes – Vozes de Caxambu, composto por crianças e adolescentes do Quilombo de Caxambu, localizado no Município de Rio Piracicaba (MG). Ao final, o Procurador Glaydson Massaria cumprimentou os integrantes do grupo, em um gesto espontâneo de carinho que marcou o encontro.
Na ocasião, Ana Maria Gonçalves, imortal da Academia Brasileira de Letras, foi agraciada com o Colar do Mérito da Corte de Contas Ministro José Maria de Alkmim, maior honraria concedida pelo TCE-MG.
O evento reuniu autoridades e representantes de diversas instituições, entre eles, o Presidente do TCE-MG, Conselheiro Durval Ângelo; o Conselheiro aposentado Sebastião Helvecio; a Presidente da Copasa, Maria Carvalho de Melo; e a Desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG), Juliana Vignoli Cordeiro.
Fruto da parceria entre o TCE Cultural e o projeto Sempre um Papo, a iniciativa projeta a cultura como espaço de mediação democrática, em que a reflexão literária contribui para qualificar o debate público e ampliar a compreensão social sobre temas estruturantes da atuação estatal.
Assista ao bate-papo na íntegra aqui.




Sobre a obra [contém spoiler]
Lançado em 2006 e considerado uma das mais densas reconstruções ficcionais da experiência da diáspora africana no Brasil, “Um Defeito de Cor” articula literatura, lastro historiográfico e reflexão crítica sobre as engrenagens da escravidão. De agora em diante, aviso de spoiler!
A narrativa é, em sua essência, uma longa carta. Quem escreve é Kehinde, uma mulher africana sequestrada ainda criança no Reino de Daomé (atual Benim) e trazida ao Brasil sob o regime escravocrata. Já idosa e cega, ela decide contar sua história ao filho de quem foi separada. Inspirada em figuras históricas como Luisa Mahin, heroína da Revolta dos Malês – movimento de escravizados de Salvador em 1835 e mãe do abolicionista e advogado Luís Gama –, a obra combina pesquisa histórica consistente com uma escrita literária que aproxima, envolve e desloca. O resultado é um romance que tensiona as fronteiras entre ficção e história.
E tem um “detalhe” que muda tudo quando é compreendido: o título. “Defeito de cor” é um termo jurídico do período colonial usado para restringir pessoas negras a determinados espaços, cargos e direitos. Existia, inclusive, a chamada “dispensa do defeito de cor”, autorização excepcional que escancarava como o Direito operava para criar, legitimar e administrar desigualdades.
Ao trazer essa discussão para o centro do Tribunal de Contas, o encontro reforça o potencial da literatura como ferramenta de leitura crítica da realidade. A obra de Ana Maria Gonçalves, nesse sentido, confronta permanências históricas que ainda atravessam a sociedade brasileira e constituem desafios para que as instituições públicas, inclusive no campo do controle, construam políticas públicas mais justas e efetivas. Não por acaso, em 2023, o romance foi eleito o melhor livro brasileiro do século XXI, em votação promovida pela Folha de S.Paulo. Em 2026, inspirou o samba-enredo da Portela.

